sábado, 27 de setembro de 2014

A esquerda usou a cosmética

 
 
A esquerda usou a cosmética
com o fino pincel da hipocrisia
Como não consegue resolver a miséria
Glamurizou-a. Deu-lhe férias!
 
Hoje, é chique ser  pobre
Está na moda ter cara de quem sofre
Pobreza virou clube
Lança-se a cabeça fora
Embeleza-se o pube
 
Favela é um tipo de éden
purificado
para o novo adão -
distraído escravo truão
 
E do camarote
do planalto central,
na gozação e no deboche,
COM BRIOCHES E CIRCO,
faz-se do pobre um tipo de mascote
 
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escrito por mdagraça ferraz

Passa ano.Entra ano

 
 
Passa ano. Entra ano.
O mesmo fardo. O mesmo ciclo.
O mesmo teatro humano
que se repete infinito :
 
- Um rei cruel e estúpido
-Uma corte de canalhas
movidos pela astúcia
-Uma rainha frívola fútil
distraindo os pobres
 com circos e brioches
-Um jornalista covarde
que sobrevive de calúnias
-Plebeus ambiciosos
sem escrúpulos
-Cortesãs bonitas vaidosas
cheias de volúpia
- Um padre sem fé
com muitas dúvidas
- Um general
de chapéu de lata
e espada de pau
-Um juiz ladrão
que rasga as leis
para proteger o rei
- Um traidor
que anda esquivo
e não se sabe
se ele é o herói
ou o bandido
-Um reino
imerso na lama
que afunda lentamente
na infâmia
 
Um povo tolo omisso tagarela
e
um poeta
triste cabisbaixo
que anda
 entre todos
como um cão falante
 
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escrito por mdagraçaferraz

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Para não enlouquecer!

 
 
Para não enlouquecer!
Para não gritar!
Para não romper as amarras
e sair dando paulada!
Ele preferiu encher a cara
Assistir ao futebol
na televisão
Bater o bumbo
até sangrar a mão
para não ouvir a própria voz
 
Para não matar!
E não sofrer
mais do que lhe caberia
nesta triste vida
Ele preferiu a anestesia
Entorpecer todos os sentidos
Vestir a fantasia de "bonzinho"
Contar piada
Escarnecer. Rir-se.
Sair de mansinho
Perder-se no carnaval
 
Para não morrer
antes da hora!
A única forma de sobrevida
era a estupidez consentida
que todos , cúmplices,
em silêncio,admitiam,
sem outra alternativa
 
Ele se chamava brasileiro,
mas podiam lhe chamar "flor"
que ele também, humilde, atendia
 
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escrito por mdagraça ferraz

No meu trabalho

 
 

No meu trabalho
todos sorriem o mesmo sorriso
bondoso e polido
que já vém acompanhado
por economia
com um " bom dia " cantarolado
 
Onde eles ensaiam?
 
E falam as mesmas palavras-
no mesmo tom, no mesmo ritmo,
quase hipnótico
que range 
Falta óleo
 
Quando eles ensaiam?
 
E possuem os mesmos gestos solidários
O mesmo verniz
no rosto enigmático
O mesmo cheiro sintético
A mesma pele fria de um réptil
 
São tão bons! Tão cordiais!
Tão gentis!Tão perfeitos! Tão anestésicos!
E tudo isto é feito de forma automática,
com o mínimo gasto energético
 
Nunca parecem contrariados
E se estão, tornam-se silenciosos
Sorriso reservado
Lentos passos
 
Nunca deixam transparecer
 qualquer sentimento
Até quando contam piadas,
por exemplo,
sorriem o mesmo sorriso
de todos os dias
Ou, quando cantam o PARABÉNS
em algum aniversário
usam a mesma voz inexpressiva
fria metálica
 
Eles nada opinam.
Nada sabem. Nada vêem.
Nada escutam.
As vezes, as vezes,
um sentimento de medo
atravessa-lhes a face, percebo,
mas logo desaparece
ao sinal eletrônico
 
Perambulam pelos corredores
no lufa-lufa diário
com a mesma atitude estúpida
atendendo o respeitável público
E se alguém , por descuido,
toca no outro,
logo pede desculpas
e segue
para não gerar curto-circuito
 
Quando lhes pergunto
se são felizes
Eles me perguntam
o que é ser feliz
Eu lhes respondo
que ser feliz é estar em paz
Eles me perguntam
o que é estar em paz
Eu lhes respondo
que estar em paz
é como estar amando
Eles me perguntam
o que é o amor
Eu lhes respondo
que o amor
é ser feliz
e estar em paz
ao mesmo tempo
 
Eles me olham, então,
com um misto de soberba e piedade,
e perguntam se conheço
alguém feliz
Eu demoro na resposta
Eles  balançam os ombros
com indiferença
e viram-me as costas
 
Quando eu lhes lembro
que o salário está uma miséria
Eles dizem
que o salário está uma miséria
mas que todos ganham uma miséria
Eu então lhes lembro
que eles não são "todos"
E lhes pergunto
quem são os "todos"
Eles então soltam
o vazio sorriso
como rabo de lagartixa
e me deixam confusa e entretida
 
Quando eu lhes digo
que há protocolos
que precisam ser corrigidos
Dizem que eles não
tém nada a ver com isto
e suas funções apenas
é OBEDIÊNCIA irrestrita
 
Eles encenam diariamente
um espetáculo chamado VIDA
 
E eu vago entre eles
como uma espécie perigosa
e quase extinta :
"Humana"
 
A pergunta que me faço
todos os dias :
Quanto tempo ainda viverei
antes que  eles me denunciem
 em alguma leviana lei?
 
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escrito por mdagraça ferraz

Pobre gente brasileira!

 
 
Pobre gente brasileira!
Exilada em sua própria Pátria
Rosto feito de suor e de lágrimas
Vítima do fatalismo apático
que ferra o couro desta nação
 
Pobre minha gente brasileira!
Condenada à fome, à humilhação,
à exploração,ao abandono,
à extinção como um cão sem dono
Que sobrevive na Selva
onde a lei traiçoeira é :
Controle- Poder- Dinheiro
 
Pobre gente, minha !
Que ao se levantar da cama, repete:
" Eles manda, nóis obedece"
" Eles manda, nóis obedece"
Ajeitando o arreio,
o pelego, a canga
no diário rodeio,
levando  esporada
no lombo e na cara,
 forcada no cangote
e na boca, a marca do chicote
 
Para minha gente,
as estrelas no céu
são como cascas de banana
e quem sonhar muito,
ali derrapa e se dana
E quem disto reclama,
fala nheco-nheco,
leva sopapo
no tico- teco
 
Gente brasileira!
O tabaréu. O Jeca Tatu.
O Zé mané. O Capiau.O matuto.
O Zé Ninguém.O peão.
O povo. O povo
Esta gororoba. Este sopão.
Refém dos enganadores,
dos assassinos, dos predadores,
na farsa democrática,
consagrada a corrupção
 
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poema escrito por mdagraça ferraz

Toma, brasileiro

 
 
Toma, brasileiro
Toma teu país :
 Este picadeiro.
Um Teatro mambembe armado
sobre o tablado improvisado
O palco
 
Subas e faças teu número:
Inventa.Minta. Trapaceia.
Fantasia. Ludibria. Mija.
Afirmas diante do mundo inteiro,
o que tu és
 
Porque tu és isto:
Este canastrão. Este pelotequeiro.
Um mágico. Um dançarino
O  farsante
 
E tua vida é isto:
Este arremedo.
Uma paródia.
A imitação burlesca
de um brado heróico
 
E tu és feito disto:
Risos. Lágrima. Fé.
Drama. Exagero. Loucura.
Fábulas e brocardos.
Burletas e algodão barato.
Saco de batata bordado
Coturno de palhaço
 
Lança fora tuas
tagarelices, palavrórios,
burricadas, parlendas,
parlapatices e bravatas
És ingenuamente malvado!
Um pervertido infantil
e um vigarista sênior
embalados em berço esplêndido!
 
" Ó Patria amada Brasil,
idolatrada,
me salve,
me salve"
 
Tudo que tu téns
é o céu distante,
como um estandarte,
que segues,
tonto e covarde,
em direção à um futuro
irrealizável- Esta miragem!
 
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escrito por mdagraça ferraz

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Em homenagem a MADELSHTÁM...

 
Este poema é baseado nos versos de MADELSHTÁM, preso e torturado pelos comunistas de STALIN, e que morreu em 27 de dezembro de 1938, aos 47 anos,com as faculdades físicas e mentais totalmente destroçadas num campo de concentração.
Trata-se de uma re-edição moderna dos versos do poeta; versos estes que o condenaram à prisão e À morte
Isto prova que a TIRANIA , qualquer tirania não vence os IDEAIS sublimes do homem e seus mais nobres anseios por liberdade e por justiça
 
Em homenagem a MADELSHTÁM, escrevi o poema abaixo, que é uma forma de ressuscitar o verdadeiro e único  ESPÍRITO adormecido
em CADA homem- DEUS, e trazer o poeta para junto de nós
Que cada brasileiro DESPERTE o MADELSHTÁM que traz dentro de si mesmo!
 

 
País de ferro e de granito
Antro de dor
Festim da miséria
e da calamidade
País assombrado
por revoada de fantasmas
e de  arlequins escarlates
 
Na mão do ditador
há sempre um osso
À sua volta,
um bando de bajuladores-
cãezinhos domésticos,
curto pescoço,
rabo comprido,
doentio faro,
que disputam entre si
um pequeno afago
 
Na mão do ditador
há grão de milho
que atira no chão
À sua volta,
meios homens,
asinha sem função,
galinhas poedeiras,
cacarejantes, ciscam
e limpam os terreiros
 
Na mão do ditador
há alfafa
À sua volta,
cavalgaduras que trotam,
raspando os cascos
Às vezes, uma lisonja,
e o ditador acaricia-lhes
 o lombo e a crina,
e como resposta :
elevam as patas e relincham!
 
Na mão do ditador
há controle remoto
À sua volta
 parasitas e sonâmbulos-
os piores de todos os escravos,
de todos, os mais indignos,
realizam o dever diário
de adulos e mimos
na servidão voluntária
que une a vítima
ao próprio carrasco
 
Na mão do ditador
há lágrimas
com que dá de beber
ao seu povo
e sangue
com que tinge as bandeiras,
as estrelas
e os rostos humilhados
 
Na mão do ditador
cabe muita gente
todos os jornalistas
todos os juízes
todos os  generais
todo este mundo triste
menos o poeta
porque o verdadeiro poeta
é livre- LIVRE!
 
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Eu também te amo

 
 
Ele nada dava
ao mundo, diziam
Como nada?
Ele tinha o escarro-
tipo de barro
mucoso orgânico
que expelia
Era sua rosa
amarela sanguínea apodrecida
 
Quem sabe, um dia,
o bom Deus lhe ouviria,
e faria-o chegar à Brasília.
Ele depositaria ,então,seu escarro
aos pés dos políticos
como um beijo agradecido
às esmolas assistencialistas
 
Quem sabe até tivesse mais sorte
nesta amarga vida
de cão de Pavlov,
e encontraria um político
cara à cara.
E antes que o político lhe lançasse
muletas, preservativos,
vacinas , gorjetas,
ele lhe atiraria
o seu dardo umedecido:
" o catarro"
E sorriria-lhe grato
compadecido
olhar de rebanho
enquanto lhe diria:
" Eu também te amo"
 
 
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