sexta-feira, 26 de setembro de 2014

No meu trabalho

 
 

No meu trabalho
todos sorriem o mesmo sorriso
bondoso e polido
que já vém acompanhado
por economia
com um " bom dia " cantarolado
 
Onde eles ensaiam?
 
E falam as mesmas palavras-
no mesmo tom, no mesmo ritmo,
quase hipnótico
que range 
Falta óleo
 
Quando eles ensaiam?
 
E possuem os mesmos gestos solidários
O mesmo verniz
no rosto enigmático
O mesmo cheiro sintético
A mesma pele fria de um réptil
 
São tão bons! Tão cordiais!
Tão gentis!Tão perfeitos! Tão anestésicos!
E tudo isto é feito de forma automática,
com o mínimo gasto energético
 
Nunca parecem contrariados
E se estão, tornam-se silenciosos
Sorriso reservado
Lentos passos
 
Nunca deixam transparecer
 qualquer sentimento
Até quando contam piadas,
por exemplo,
sorriem o mesmo sorriso
de todos os dias
Ou, quando cantam o PARABÉNS
em algum aniversário
usam a mesma voz inexpressiva
fria metálica
 
Eles nada opinam.
Nada sabem. Nada vêem.
Nada escutam.
As vezes, as vezes,
um sentimento de medo
atravessa-lhes a face, percebo,
mas logo desaparece
ao sinal eletrônico
 
Perambulam pelos corredores
no lufa-lufa diário
com a mesma atitude estúpida
atendendo o respeitável público
E se alguém , por descuido,
toca no outro,
logo pede desculpas
e segue
para não gerar curto-circuito
 
Quando lhes pergunto
se são felizes
Eles me perguntam
o que é ser feliz
Eu lhes respondo
que ser feliz é estar em paz
Eles me perguntam
o que é estar em paz
Eu lhes respondo
que estar em paz
é como estar amando
Eles me perguntam
o que é o amor
Eu lhes respondo
que o amor
é ser feliz
e estar em paz
ao mesmo tempo
 
Eles me olham, então,
com um misto de soberba e piedade,
e perguntam se conheço
alguém feliz
Eu demoro na resposta
Eles  balançam os ombros
com indiferença
e viram-me as costas
 
Quando eu lhes lembro
que o salário está uma miséria
Eles dizem
que o salário está uma miséria
mas que todos ganham uma miséria
Eu então lhes lembro
que eles não são "todos"
E lhes pergunto
quem são os "todos"
Eles então soltam
o vazio sorriso
como rabo de lagartixa
e me deixam confusa e entretida
 
Quando eu lhes digo
que há protocolos
que precisam ser corrigidos
Dizem que eles não
tém nada a ver com isto
e suas funções apenas
é OBEDIÊNCIA irrestrita
 
Eles encenam diariamente
um espetáculo chamado VIDA
 
E eu vago entre eles
como uma espécie perigosa
e quase extinta :
"Humana"
 
A pergunta que me faço
todos os dias :
Quanto tempo ainda viverei
antes que  eles me denunciem
 em alguma leviana lei?
 
...........
escrito por mdagraça ferraz

Nenhum comentário:

Postar um comentário